03/01/2008

Terceiro dia do ano


No meio da estrada , afora, circulo me em animal metamorfose metal, umas vezes paralamas, outras escape, por vezes limpo parabriso me. Nesta singularidade normal e inteligível, outros vultos circulam por aqui, só reconheço o retrato dela, um dia falei-lhe do espaço desintegrado, ela aceitou e disse compreender. Confessou me sua morte interior, vinha dum doloroso desengano, senti um ponto de contacto, quando distraidamente me afagou os faróis de nevoeiro. Tinha um nome , mas não o queria usar mais, preferia navegar na jangada sem leme , olhar as linguagens desfilando nos seus olhos, repetir sempre o uso do primeiro vestido de rendas e tafetá estreado nos seus treze anos. Com os anos as cores desbotaram mas as rendas ficaram lembrando o rendilhado de sua existência. E era assim que se apresentava ela , hoje , terceiro dia do ano: um caos social, uma amálgama de dores , até a nostalgia a visitava , deixara de acreditar no que fosse. Aquilo, vê la assim, fez me sentir a caixa negra de uma qualquer intenção, que não sendo minha , ocupava o meu espaço. Meu chassi retorcia se, desacelarei e sem travar coloquei me do lado dela. Travamos conhecimento em plena via rápida e em andamento lento diagnosticamo nos várias insuficiências, pusemos nos de acordo.
Seria uma via de sentido único e profundo, numa viagem para lá, sempre para lá… no sentido inverso da noite e do esquecimento.
Foi assim que conheci o meu grande amor.

4 comentários:

Maria Muadié disse...

Lindo.

Paula Cabral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paula Cabral disse...

Sim querida...pelo que vi em seu blog, somos mesmo, eu, você e Clarice, conhecidas há muito tempo. Compartilhamos sensações "dociamargas", não é?
Gostei de te saber por perto..
Compartilhemos sentimentos e idéias, sempre!
Um grande dia pra vocÊ!

Obs: compartilho também de sua religião: o agora!

i just can´t get enough disse...

Desassossego...as emoções apoderam-se de nós, sem darmos conta que já se instalaram no nosso âmago.
Puro e cristalino...
Abraço,
Paula