20/08/2007

XICO ESPERTO

- Trinta euros por um pinheiro, o tanas! Há tantos no Pinhal da Paz!
- Mas na rádio avisaram que é proibido e que as multas são muito pesadas para os que forem apanhados com pinheiros que não sejam de viveiros, com certificado e tudo! Dizia Videntinha dos Barros, esposa de Xico Esperto, enquanto observa a estrada que os leva ao citado pinhal.
- E quem é que vai controlar? Mais árvore menos árvore, a quem isso interessa? É mais uma estratégia dos viveiros para aumentarem o negócio, além disso, não pago impostos? Afirmou, perguntando Xico Esperto, então…
- Bom, vamos, lá escolher um que se faz tarde. Fez saber Xico, já no meio do pinhal, carro parado, observando o meio envolvente.
- Mas já só há dos grandes, diz Videntinha, esperançada numa desistência dos intentos.
- Destroem tudo! Que vergonha! Mas de mãos a abanar é que não saio daqui… a copa deste ali serve.
- Dá-me as ferramentas.
- Hem?! Queres que corte um tronco destes com isto?
- É o que há… e cuidado, que é a das batatas; justificou Videntinha a entrega da pequena faca.
- Arranca-o com raízes, Papá… para ele não morrer; sugeriu Riquinho.
- Com raízes? Uma parvalheira dessas só, pode ser coisa do idiota do teu professor de Ciências.
- Bem nós esperamos no carro. Está a começar a ficar frio. Não te demores muito, pediu Videntinha.

- Com raízes! E ainda por cima começou a chover! Vais ver!
Furiosamente dirigindo-se ao pinheiro começou a cortar com a faca o tronco dois palmos acima do chão, sob a constante chuva e várias ruminações suas.
Quarenta minutos depois, com o pinheiro de três metros às costas e já junto ao carro avisou:
- Pronto , já está!
- Cortaste-o! Não quero esse! Não quero um pinheiro morto! Choramingou Riquinho.
Tão a ver a cena… o Nissan Micra, com Xico Esperto e Videntinha à frente; no banco de trás, Riquinho mais o pinheiro, ramos saindo pelas janelas traseiras abertas, metro e meio da copa para fora do portabagagem aberto.
- Não quero um pinheiro morto! Tenho frio! Estou a apanhar chuva! Agravou Riquinho, carro estrada fora em direcção à via rápida.
- Ou mandas calar o imbecil do teu filho ou faço-o engolir o maldito pinheiro!
- És um bruto, Xico! O que tu dizes ao miúdo!
- Não quero um pinheiro morto! Reforça Riquinho.
- A gente trata-lhe do enterro! Pronto, cala-te.
- Vai mais devagar Xico! Está a chover… avisa Videntinha.
- Queres que a Polícia nos apanhe? A uma hora destas e encharcado como estou! Qual mais devagar!
- Eu não quero um pinheiro morto!
- E que é que tu julgas? Que sou um destes imbecis que compram as cartas? Sei muito bem, quando posso acelerar e… eh?!... E este? Porque trava?
CLONC,CRASHPUM,CATAPUM. Choque com a traseira do verde carro.
- Merda! Este cretino vai ouvi-las! Sai do seu Micra dirigindo-se ao outro condutor.
- Azelha! Travar assim! Podíamos ter morrido! Não fossem os meus reflexos… olhe como ficou o meu carro! Ainda por cima, o seu, nem um risco tem… Isto vai custar-lhe os olhos da cara.
- Quem vai pagar é você, seu nabo! Bateu-me por trás.
IIIIIIINNNCCHH, pneus a chiar,CRASH,CLONC. Um outro carro embatera na traseira do Micra, partindo o parabrisas, por via do pinheiro.
- Aghhh! Imbecil, não vês que estou parado? Perguntou Xico Esperto em direcção ao condutor que embatera na traseira do Micra.
- Olha para isto! Tens de mudar de lentes, cegueta! Vou arrancar-te o pouco cabelo que te resta, és um perigo, um irrespo
nsável…
- Mas eu nem toquei no seu carro! A árvore está tão saída! Se tivesse…
- Boa tarde, o que se passa aqui? Demanda o Polícia agora chegado.
- Este amigo, como pode ver, bateu-me por trás, enquanto eu parara por causa da bicha.
- E eu como essa árvore encobre as luzes de presença e está muito saída, não pude travar a tempo e partiu-se-me o parabrisas.
- O senhor terá de pagar todos os prejuízos, por não ter mantido a distância, Quanto a este ( referindo-se a Xico Esperto) , vou multá-lo por… vejamos…
- Eu?! A mim?! Pergunta incrivelmente incrédulo Xico Esperto.
- Exactamente. Pode mostrar-me o certificado de compra do pinheiro?
- Eh… o… certificado…

- Trinta euros de gasolina, cento e vinte de multas, quatrocentos do arranjo do carro, quinze para a gripe que apanhaste… sem contar com a faca das batatas que ficou bonita! Mas poupámos muito, poupámos! E ainda por cima os pinheiros de viveiro duram mais tempo… disse-lhe Videntinha, mirando o acidentado pinheiro natalíciamente adereçado, a um canto da sua sala.
- Eu não quero um pinheiro morto!

17/08/2007

MARTA PLANTIER

De alguém que em palco consegue " performances " fora do vulgar, arrebatadoras, usa-se a expressão " que aquela artista é um animal de palco".
Esta expressão não serve para a Marta Plantier. Ela é ( a expressão ) demasiado pequena.
Imaginem uma imensa pradaria/savana como palco. Não uma, mas inumeráveis manadas de animais disparando em correrias loucas com mudanças inesperadas de velocidade e intensidade, preenchendo o espaço entre o Céu e a Terra.
Estão vendo/ ouvindo os cascos batucando a Terra Mãe, sob escaldante avermelhado Sol , que umas vezes é nascer, outras pôr do Sol Afrikano?
Então as emoções correm em tropel, estonteantes, a terra estremecendo, mostrando-nos as nuances multicores da vida. Um frenesim auditivo toma conta de nós, esclarecendo como pode ser o turbilhão de um processo criativo.
Eu vejo e sinto a Marta Plantier assim. Todos temos o direito à opinião. Não abdico da minha.
O "Exagero" , ao contrário do que muitos pensam, é a força criadora, por oposição ao normal; o exagero é positivo , é necessário.
Formulo assim o desejo: que a Marta consiga exagerar ainda mais, pois assim preserverá a sua autenticidade.

Nota: Para os "Recadistas" um recado.
" O Céu deu-nos duas orelhas para
escutar e uma boca para falar.
Deveríamos portanto ouvir duas vezes
mais do que falamos."
Provérbio Chinês

14/08/2007

A OBREIRA / O OBREIRO




Sou eu que tenho a mania de falar / escrever sobre os conceitos chauvinistas da linguagem? É cansativa esta chamada de atenção? Sim? Pois para mim também é bastante cansativa, incomodativa e todos os ivas possíveis desta tendência só para um dos lados.Um Dicionário de uma Língua é assim como que uma história da carochinha? Não se liga? Quer dizer, não tem crédito? Como quizerem.



Imponho a minha teimosia ( mas educacionalmente , peço desculpa) e cito um Dicionário da nossa língua, a Portuguesa: Obreiro - Operário ; trabalhador; o que trabalha para o desenvolvimento de qualquer ideia ou doutrina.Esta definição de "desenvolvimento de qualquer ideia" enche a minha ( não me atrevo a dizer " a nossa") masculina alma de um inusitado orgulho. Sem dúvida isto masculiniza a teoria filosófica existencial do Macho. Convém não esquecer os múltiplos femininos orgasmos.



Mas para quem escrevo eu ? Ah ... para as estagnadas águas do pântano.

Ficou claro que "O Obreiro é aquela figura... sei lá... um Deus...?

Adiante... Obreira segundo o Dicionário, nada mais é que uma extensão do masculino, pois é definida como " feminino de Obreiro". Maquiavélica influência da costela Bíblica? E continua a definição: obreira, mulher que executa um trabalho remunerado por salário. O quê? Lá atrás "O Obreiro " desenvolvia uma ideia ou doutrina, aqui " A Obreira" executa um trabalho remunerado por salário ?

Que é isto ? Estamos falando de um "Show Girls"? Ou da espécie humana ?
A intenção é deliberadamente para lançar a confusão nas mentes.
Julgo eu.


08/08/2007

" ASSOBIAR PARA O LADO"


Fofas e figuradas nuvens
cintilam raios algodoados de Sol
por entre elas, como amantes,
amando-se num indestrutível Arco-Íris.
Talvez… poético.
Seguramente inverdade.

Pesadas e carregadas nuvens
transportam enormes cubicagens,
monóxido de carbono, a ácida chuva,
outros gases letais, estufando efeitos,
o verde definhando.
Não tão poético.
Seguramente verdadeiro.

A paródia assim ganha espaço
Nunca teme o exagero, é
Uma opção de vida.
Parodiando,
presta-se homenagem ao parodiado!

Ou será que a nuvem algodoada de sol,
não é a mesma do monóxido de carbono?
Inocência?
Desconversando…
A nuvem é, já em si, uma paródia.

04/08/2007

Celestiais Galopes


Cheguei ali muito jovem.
Uma manhã,
tuas pétalas húmidas, orvalhadas
da filigrana pose,
abriam-se oferecendo,
a amâga alma concavidade,
promessas de deleites e cheiros.
Dedos afagando os corpos ardentes,
numa virgem volúptia
teus descalços pés
no tapete petalado,
descansavam.
A nudez entreaberta da carne,
entre os vulvos lábios,
o latejante membro,
gemia certezas
dentro do flamejante movimento,
orgástico.
Ansiosa entreabrias
uivantes galopes, as coxas suplicantes,
mostrávamos-nos cósmicos prazeres
desfalecendo no lânguido torpor
húmido do amplexo
mútuo abraço.