15/06/2007

Mal Ama Anhado

Mal Ama Anhado, um senhor, era integro bípede. Seu esqueleto imperturbável, mantinha-se perante e durante os ventos. Aparentava cabelos brancos, seu sorriso acumulava sortes e azares.
Diziam-no, ainda descendente duma estirpe, algures uma Reanobreleza, enfim dum Reino já descaiado.
Muitos juravam a cotovelos juntos:
- Que sim!
Testemunho? Pois... seu único olho azul, que faroleava destinos mesmo em dias sombrios.
Seus olhos nasceram normais. Eram bipolares. O outro de negra cor, avivava-lhe o esquecimento do seu o todo nascimento. Era verdade impermeável. Ainda hoje não se lembrava do seu nascimento.
De tanto se reflectir em espelhos, habituara-se já , àquela bipolarcoridade, sem duvidar.
Koriskinha, oito primaveras, cabelos lisos negros, sua cor: o arco irís! Dissera-lhe um dia:
- Porque o senhor Mal Ama Anhado não concorre pr'a Professor? Na minha Escola estão procurando um Professor da disciplina “Estudo da Lei da Proporcionalidade”.
Era sempre assim:
Chegava-se a mim, seu olhar incolor, dizia-me nos olhos, rápidas perguntas e quando eu ia responder já suas costas me deixavam atrás.
E foi uma vez... de currículo feito, apresentei-me na Escola perante o Julgador, um ser de facies impenetráveis, que minuciosa e velozmente fungou meu currículo... dizendo-me... pausando um silêncio:
- Desculpe Senhor Mal Ama Anhado , mas o Regulamento, não permite uma visão bipolar do Ensino; a nossa Instituição pauta as suas directrizes , pelo Uniforme, pela Monocultura, somos enfim uma respeitável Escola de cor una.

Dos lados de fora da monolítica Escola e com o endereço, dado pelo Julgador, indicando-me o fornecedor de lentes de contacto, encontro-me.
Podia eu assim tornar negro, meu azul olho, dissera-me ele, palmeando minhas costas.
Pensativo... duvidei se o Destino escreve mesmo Deuses tortos por Realidades direitas.

1 comentário:

Gwendolyn disse...

Olá, Kim!

Muito bem construíso o personagem, que não atende ao externo, por ser êle "fora dos padrões exigidos", para os que se sentiam "ameaçados" nos seus "irreais valores", e de como é fácil se "tapear" uma exigência banal, com uma simples artimanha tão banal, para ser simplesmente "aceito"
Muito bom o texto, porque reflete o que sempre vemos com muita frequência neste nosso mundo.

Beijos

Gwen