08/02/2007

O CRIME DE SOFRER

Ajude-me a suprimir a dor que me faz sofrer mas deixe-a comigo para que eu possa existir.
Uma doente ao seu psicanalista.


Num romance surgido em 1872, Samuel Butler imagina uma região, Erhewon ( anagrama do inglês de nowhere), o país de parte alguma onde a doença é punida como um crime, a menor constipação pode equivaler a trabalhos forçados, apesar de a morte ser considerada como uma doença que merece solicitude e cuidados.

Com um agudo sentido da premonição, samuel Butler chega a precisar que a dor e a aflição, por exemplo, a perda de um ente querido, são punidas como um delito grave, não sendo o aflito mais que um delinquente culpado pelo seu próprio desgosto. A um homem acusado de tuberculose pulmonar, o juíz explica a sentença que vai pronunciar nestes termos: " Dir-me-eis talvez que não sois responsável nem do vosso nascimento nem da vossa educação. Mas responder-vos-ei que a vossa tuberculose, sejais ou não culpado, é um crime vosso e é meu dever velar para que a república seja protegida contra os crimes dessa natureza. Podeis dizer que é por infortúnio que sois um criminoso; eu replico que o vosso crime é ser infortunado."

Soberba e irónica intuição que a segunda metade do século xx confirmou ao dar, mais que qualquer outro período, um gigantesco passo em frente em direcção à negação da infelicidade e à "proibição de morrer" ( Philippe Ariés). Como se todos os tempos quizessem dar razão ao filósofo Alain, o infatigável bardo do optimismo da III República , (1911-1923) que nega qualquer realidade aos sofrimentos extremos. Como para Epicuro, eles não existem , não são palpáveis, " o horror é soporífico" e a morte quando chega é instantânea, não deixando qualquer lugar à imaginação, ao medo. Nesta escamoteação, vai mesmo ao ponto de sustentar sem ironia que um homem que caminha para a guilhotina " só tem que me lamentar"; basta-lhe pensar noutra coisa, de "contar os ressaltos ou as esquinas. Quanto a Pascal, a sua excitação perante as estrelas e o infinito " tinha origem sem dúvida em ter apanhado frio sem disso se aperceber quando estava à janela" (sic).

Será que é destas origens ou foi aí reforçado o conceito " INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ"? Sera a isto que se chama a reinvenção da linguagem?

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