21/02/2007

ÁFRIKA A PULSAR ( I )

A geografia e a história explicam muito. Este é O ÚNICO continente que se estende pelas Zonas Temperadas do Norte e Sul; possui uma larga área central tropical no meio de duas estreitas zonas temperadas, uma a norte e outra a sul. Essa simples realidade geográfica explica muito sobre a Áfrika da actualidade qualquer que seja o prisma de observação.Quanto à história do ser humano, este é o local onde há sete milhões de anos as linhas evolucionárias dos primatas e dos pré-hominideos divergiram. Foi o único continente que os nossos antepassados habitaram até há cerca de dois milhões de anos, quando o Homo erectus se expandiu de Áfrika para a Europa e para a Ásia. No milhão e meio de anos que se seguiram, a população desses três continentes realizou percursos evolucionários tão distintos que daí resultaram espécies diferentes. Os da Europa tornaram-se os Neandertal, os da Ásia continuaram Homo erctus, mas os de Áfrika evoluíram na nossa espécie, Homo Sapiens.Entretanto, entre 100 e 50 mil anos atrás, os nossos antepassados afrikanos sofreram uma mudança ainda mais profunda. Náo temos a certeza se terá sido o desenvolvimento do discurso complexo ou outra qualquer faceta, como uma alteração do funcionamento neurológico.Fosse o que fosse, ela transformou os primeiros Homo Sapiens naquilo a que os paleoantropólogos chamam o " comportamentalmente moderno" homo sapiens. Esses indivíduos, provavelmente com o cérebro semelhante ao nosso, voltaram a expandir-se para a Europa e para a Ásia. Uma vez lá chegados, exterminaram, substituíram e misturaram-se com Neandertais e hominideos asiáticos, tornando-se a espécie humana dominante em todo o mundo.Com efeito, os afrikanos tiveram um enorme avanço em relação aos seres humanos de outros continentes. É isso que torna as dificuldades económicas de Áfrika, comparadas com o êxito de outros continentes, particularmente intrigantes.Uma vez mais, nesta questão, a geografia e a história dão-nos respostas.O mundo mudou radicalmente há cerca de dez mil anos, com a génese da agricultura. A domesticação de plantas e animais selvagens proporcionou aos nossos antepassados a possibilidade de produzir os seus próprios alimentos, escapando à obrigatoriedade de caçar e recolher. Essa vantagem permitiu o estabelecimento de comunidades em aldeias permanentes, aumentando populações e “gerando” tarefas e indivíduos especializados ( inventores, soldados e soberanos), que não produziam comida. Com a domesticação, surgiram outros avanços, incluindo os primeiros instrumentos de metal, a escrita e as sociedades estatais.Todavia, apesar deste avanço agrícola, apenas uma minúscula minoria de plantas e de animais selvagens se prestam à domesticação e essas estão concentradas em cerca de meia dúzia de zonas do mundo. A exploração agrícola mais produtiva surgiu no Crescente Fértil, no Sudoeste Asiático, onde o trigo, a cevada, as ovelhas, o gado bovino e as cabras eram domesticadas. Essas plantas e animais espalharam-se para Este e Oeste na Eurásia, mas em Áfrika foram detidos pela orientação Norte-Sul do continente. Culturas agrícolas e explorações de gado têm tendência a distribuir-se muito mais devagar de Norte para Sul do que de Este para Oeste, porque diferentes latitudes requerem adaptações climáticas, sazonalidades, diferentes horários diurnos e novas doenças.As próprias espécies de plantas endémicas de Áfrika só foram domesticadas milhares de anos depois de existir agricultura na Ásia e na Europa. E a geografia de Áfrika impediu que o óleo de palma, o inhame e outros produtos da Áfrika Equatorial se espalhassem para a zona temperada da Áfrika Austral.

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