10/01/2007

KIMBUNDISSES OU PORTUNBUNDISSES?


A propósito da palavra, ela não é de ninguém, mesmo aquela que escrita ou dita no momento. E já agora- a frase só dita e nunca escrita não é verdadeira? E mesmo a escrita perdida, não existe? E o pensamento não revelado, existirá? E o dito que aqui: assim, e mais além, já outra coisa, é também uma verdade?
Recuando, pego em mim lá atrás, no meu começo quando aprendi a ler no voo do colibri... ou escutando a trovoada...no medo do batuque- òbito...mais velho Chimbueko também sua sabedoria me deu...
Depois um desfiar de livros , gentes, calores, cheiros ,guerrilhas, o mundo se mostrando para mim , falei ,vi ,ouvi: Afonso Henriques , Nietzsche, minha Mãe, Jesus Cristo, Platão , o Amigo , Osho , Gungunhana , o salto na lua, o Pavlov, a tia Mabunda, a pílula, o Desamor, Barrabás, Eu, Eles, Nós e os Outros todos.
Plágio da palavra? Como se ela não tem dono? Sempre que a quero, ela foge...
Ser tão livre e carrasco não conheço!


<<...veio o dia. Eu sabia. Primeira vez que passei mão em sua sombra de silêncio, nos picos tão anciãos, mafumeira soube logo. Mas não creditei – era ainda muito tosco material, barro bruto. Porque o Zeca veio. Na cara dos outros eu dava-lhe sôr engenheiro, indiscriminação que ele queria. E ele a mim o tu, ò Tininho. E disse : “Vem cá pa´.” E foi chamar o tractorista do D-6: nhô Antonho. Este quem escolheu serventes: quitexense Dioko , pequenete, de muitas palavras e poucos amigos; o Puati, fiote cabinda, de rosário ao pescoço: o último, um lucalense ou cacuso, os outros lhe chamavam é o Garrafa –de-gás: corpo igual de baixo a cimas, cabeça de passarinho. O nome dele cristão baptizado, era Emanuel. E tudo digo e lembro, modo de o irmão ver que todos não eram iguais em nada. Que o preto-preto era só o Emanuel; o fiote quase mascavado. Quase albino era o Dioko, quiassa...>>

<<... então, no silêncio das vozes das mulheres que já não faziam fuba, ouvi cantar. Cantar! Nadei, pânico. Vinha a voz – aquela voz de leite espesso, o pouco acre dela, música diferente, arrumadíssima. Corri na roupa – ela , corça, saiu dos altos capins, lá mesmo, parece é agora: chapéu era de palha gentia, a fita encarnada; e por baixo é que o lenço enlutava os cabelos cor de mel. Viu-me calou-se, velha subitamente – o vestido todo flores, sem mangas, sem gola, sem roda. Caiu seu bloco de desenhos, caixas de tintas, tudo. Meio metro de minha roupa no chão, era distância infinita de nossos olhos. E ela , a menina Miss, muito devagar como quem levanta todo o peso de sua vida, ergueu o dedo, um só, até tocar meus lábios secos – eu vi o céu girar, seu berro, grito único em minha vida. Berrava; gritava; se rasgava, murmurava – morria a cada vez, morreu vezes e vezes, sempre assim. Porque ela queria morrer, era sua nova felicidade – morrer; desaparecer; voltar num princípio de vida só dela, ovo...>>

Nestes excertos de uma história de Luandino Vieira , eu vejo, e reconheço tudo, grandes e pequenos :Pode ser um Ecologista um Hermann Hesse da prosa, um Chegvara do dito, um Marx da distribuição da riqueza um Levi Strauss antropólogo, um outro escritor da Sensualidade e tantos outros por dizer.
A palavra arte ou qualquer outra arte nunca pode ser plagiada, ela começa e acaba naquele momento. É una e indivisível.

Já agora: a passagem para ( na velha Europa) três vezes mais da população, de 150 milhões para cerca de 450 milhões e só em 2 séculos não será um Plágio da clonagem Humana?
Pense...

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